Humanidades na educação médica: um contributo para a humanização da medicina
Laura Ribeiro
Professora Associada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Esta apresentação, integrada na sessão “A promoção da literacia em direitos dos utentes: qualidade dos cuidados e humanização”, e com o subtítulo “Humanidades na educação médica: um contributo para a humanização da medicina”, teve como objetivo dar a conhecer a forma como as escolas médicas, e em particular a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), tem integrado a temática das humanidades na formação dos seus estudantes. Após enquadrar o tema da humanização nos cuidados em saúde, rever a literatura sobre as várias vertentes das humanidades, através das quais se pode contribuir para humanizar práticas e comportamentos, e competências a adquirir, deu-se como exemplo uma unidade curricular denominada “Humanidades em Medicina”, que os estudantes frequentam no 1º ano do curso.
Segundo a Comissão Nacional para a Humanização dos Cuidados de Saúde no SNS, “a humanização efetiva incorpora a personalização da comunicação, a empatia e a compaixão face à fragilidade e à condição emocional e psicossocial de um doente, do nascer até ao seu morrer.” Promover o humanismo é essencial para manter a qualidade dos cuidados de saúde, e a evidência tem mostrado que a integração das humanidades na formação dos estudantes de medicina pode contribuir para uma prática mais humanizada.
Como relembra Joaquim Bastos (1), citando Mayer Garção “quando o médico vê o doente por detrás da doença, o doente vê o amigo por detrás do médico”, e assim se atinge o auge do humanismo.
Segundo Adams et al. (2), “as humanidades em medicina são um campo interdisciplinar que inclui disciplinas e iniciativas curriculares no domínio das humanidades, das ciências sociais, das artes visuais e performativas que exploram os contextos sociais da doença e da prática médica”.
Na verdade, são muitos os efeitos da exposição às artes e às humanidades na melhoria de competências como a comunicação clínica e a compreensão das histórias dos doentes, aumentando a sensibilidade às várias formas de linguagem utilizadas, bem como fomentando valores do profissionalismo, como a integridade, a empatia e o altruísmo (3, 4, 5,6). Numa revisão de Costa-Drolon et al. (7), vários estudos demonstram a importância da empatia na prática clínica, nomeadamente na valorização de sintomas para estabelecer diagnósticos mais específicos, favorecendo a adesão e a participação dos doentes nos cuidados, e nas decisões relacionadas com a sua saúde, conduzindo ainda à redução dos custos e à melhoria dos cuidados de saúde.
Na medicina moderna, dominada pela ciência e pela tecnologia, as humanidades podem assim contribuir para garantir que os médicos assumem uma prática centrada no doente, valorizando o seu contexto social, cultural, moral e psicológico (8).
Há muito que se discute que a formação dos futuros médicos está demasiado focada no conhecimento das várias áreas médicas, e pouco nos aspetos humanísticos e no exercício diário da atividade clínica. Não só as escolas médicas internacionalmente têm estado atentas a esta lacuna, mas também os estudantes têm salientado a importância da integração das humanidades no currículo numa fase inicial do seu percurso (9).
Os programas curriculares em medicina dos Estados Unidos e do Canadá contemplam a área das Humanidades desde os anos 60, e em 2019 a Associação Americana de Escolas Médicas (AAMC) identificou a disciplina de Humanidades em Medicina como uma prioridade na educação médica (2).
A iniciativa The Fundamental Role of the Arts and Humanities in Medical Education (FRAHME, 2020) (2), partindo das orientações da National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (NASEM) (3), propõe as seguintes recomendações para integrar as artes e as humanidades nos currículos médicos: a) assumir a prática médica como uma ciência, mas também como uma arte, assente em valores e competências humanistas que permitam a estudantes e médicos compreender profundamente a condição humana; b) desenvolver modelos mais eficazes para integrar as HM no processo de ensino-aprendizagem; c) avaliar o impacto dos cursos e programas de HM na educação médica e no desenvolvimento profissional, melhorando a investigação nesta área; d) desenhar abordagens de integração das HM que contribuam para melhorar o bem-estar de estudantes e médicos; e) aumentar a colaboração interdisciplinar entre docentes do ensino superior, envolvendo médicos, estudantes, doentes, organizações e profissionais ligados às artes; f) oferecer formações de desenvolvimento profissional que capacitem para o desenvolvimento de modelos integrados de HM na educação médica; e g) investigar práticas pedagógicas eficazes na integração das HM, valorizando esses trabalhos na promoção académica.
Na FMUP, as Humanidades em Medicina foram integradas como componente nuclear aquando da reforma curricular de 2013/2014, tendo sido a primeira escola médica nacional a fazê-lo. Desde então, em maior ou menor extensão, de forma nuclear ou opcional, todas as escolas incluíram esta área nos seus programas curriculares. A título de exemplo, nas Universidades do Minho e de Aveiro esta componente é integrada ao longo do curso. A disciplina “Humanidades em Medicina” é lecionada no 1º ano do curso e inclui no seu programa a história da medicina, antropologia médica, medicina narrativa, artes, literatura, integridade, ética, profissionalismo, pensamento crítico e a comunicação clínica.
Muitos são os materiais e atividades que podem ser usados para trabalhar estes conteúdos com os estudantes. Alguns exemplos abordados nesta disciplina são obras como A Morte de Ivan Ilitch de Lev Tolstoi (1826-1910), De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires (1925-1998) e os Contos da Montanha de Miguel Torga (1907-1995), e excertos do documentário Humans (Yann Arthus-Bertrand, 2015), que nos permite abraçar a condição humana e pensar sobre o sentido da nossa existência. Como diz na sua sinopse: “é um documentário com histórias e imagens do nosso mundo, oferecendo uma imersão nas profundezas do ser humano. Através de entrevistas cheias de amor e felicidade, mas também de ódio e violência, Humans confronta-nos com o outro e devolve-nos às nossas próprias vidas.” E também “Desde a mais pequena história diária até às histórias de vida mais incríveis, estes comoventes encontros de uma sinceridade rara destacam o que somos, o nosso lado mais obscuro, mas também o que nós temos de mais bonito e mais universal.”
Além destes exemplos, estes conteúdos são igualmente trabalhados através da música, pintura, fotografia, e outros textos literários. A discussão em sala de aula não procura dar respostas únicas ou “corretas”, mas sim encorajar respostas e interpretações várias, bem como a reflexão sobre a futura profissão e como vai ser exercida. Nestes espaços de reflexão e partilha, os estudantes podem assim ir desenvolvendo competências de observação, análise, empatia e autorreflexão, que poderão ajudar a lidar mais eficazmente com a ambiguidade, o preconceito e a incerteza.
A avaliação desta disciplina inclui um exame com perguntas de desenvolvimento, e um trabalho colaborativo, em que se pretende que os estudantes elaborem um projeto de intervenção sobre temáticas abordadas nas aulas, escolhendo um grupo alvo do seu interesse, e que o apresentem e discutam oralmente. As perguntas de desenvolvimento permitem que os estudantes reflitam e pensem criticamente sobre os temas. O projeto, além da liberdade de escolha do tema, permite que estes trabalhem de forma colaborativa e aprendam em conjunto. Os estudantes, escolhendo uma ou várias temáticas interligadas, têm proposto variadas atividades de promoção e sensibilização, como a organização de congressos, seminários e cursos, a criação de plataformas, vídeos e blogs, a elaboração de inquéritos, panfletos e outros materiais educativos e de divulgação dirigidos a diferentes públicos.
Os espaços de reflexão, aliados a estes momentos de avaliação, numa fase precoce da formação dos estudantes, contribuem para o desenvolvimento de outras competências importantes para a prática clínica, como o espírito crítico e a criatividade na abordagem aos temas, pesquisa científica e de escrita, trabalho em grupo e de apresentação em público. Além disso, promovem a atenção e a motivação dos estudantes para a auto-aprendizagem, mas também, pela natureza dos temas, a reflexão sobre os aspetos filosóficos e éticos da medicina, da prática clínica e da investigação.
O ensino destas temáticas envolve grandes desafios para os educadores, especialmente quando reconhecem a complexidade da interligação entre a academia e os serviços de saúde. O confronto entre o que se estuda, o que se ensina, o que se pratica e o que se vê praticar. A comunicação, a Linguagem verbal e não verbal. O trato do doente e familiares, e a sua inclusão em todo o processo. A gestão da informação clínica no diagnóstico, prognostico, tratamento e no fim de vida (transmissão, confidencialidade e privacidade). O uso de protocolos pouco personalizados. Como os profissionais, mais e menos diferenciados, se articulam, comportam e relacionam uns e outros, a sua substituição em equipas sem aviso. A forma como se trata o corpo, a relação entre médico e doente e o esquecimento.
Nos últimos anos, tem havido uma preocupação generalizada com a falta de humanismo e profissionalismo na profissão médica, que se tem agravado devido a fatores como o individualismo, a sobrecarga de trabalho e a falta de tempo, pressões financeiras e o uso excessivo da tecnologia, fatores que podem comprometer a relação com o doente. As escolas médicas não devem assumir que as atitudes humanísticas, e o profissionalismo, são características inatas e que não podem ser ensinados e modulados. Pelo contrário, devem usar as melhores estratégias para as promover, ajudando os seus estudantes e futuros profissionais a explorar a condição humana nas suas múltiplas facetas, levando ao exercício de uma medicina mais centrada na pessoa. Mais importante que descrever como o estão a fazer, é reforçar que as escolas médicas ao cultivar o humanismo e o profissionalismo estão a contribuir para não comprometer, nem as expectativas dos doentes que recorrem aos serviços de saúde, nem as dos estudantes que escolhem a medicina como futura profissão. Saibamos todos estar à altura deste desafio.
- Bastos J (1990) Separata do “Jornal do Médico” CXXVIII (2358): 568-570.
- Adams et al. (2023) Variation in Medical Humanities Program Mission Statements in United States and Canadian Medical Schools. Med Teach. 45: 615–622.
- National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (NASEM). The Integration of the Humanities and Arts With Sciences, Engineering, and Medicine in Higher Education: Branches From the Same Tree. Washington, DC: National Academies Press; 2018.
- Mangione et al. (2018) Medical students’ exposure to the humanities correlates with positive personal qualities and reduced burnout: a Mult institutional U.S. survey. J Gen Internal Med. 33: 628–634.
- Howley et al. The fundamental role of arts and humanities in medical education [Internet]. Chicago, IL: Association of American Medical Colleges (AAMC); 2020. [cited 29 March 2021].
- Charon (2001) The patient-physician relationship. Narrative medicine: a model for empathy, refection, profession, and trust. JAMA 286: 1897-1902.
- Costa-Drolon et al. (2021) Medical Students' Perspectives on Empathy: A Systematic Review and Metasynthesis. Acad Med. 96: 142-154.
- Howley et al. The Fundamental Role of the Arts and Humanities in Medical Education. Association of American Medical Colleges. 2020;National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (NASEM).
- Petrou et al. (2021) The role of humanities in the medical curriculum: medical students’ perspectives. BMC Med Educ21, 179.

