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O Direito à Infância em Contexto Hospitalar


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Jornadas ERS Direitos e Deveres dos Utentes dos Serviços de Saúde 2025

 

4 de junho 2025

 

“A promoção da literacia em direitos dos utentes: qualidade dos cuidados e humanização”

Uma reflexão a partir da intervenção da Operação Nariz Vermelho

 

Oradora: Maria Inês Peceguina

 

O DIREITO À INFÂNCIA

O ponto de partida para esta comunicação, que é também o ponto de partida para o encontro, essa palavra especial, central na língua-linguagem dos Doutores Palhaços da Operação Nariz Vermelho (ONV), é o   pressuposto de que a infância continua a existir mesmo quando a criança atravessa um momento de grande vulnerabilidade, como uma doença, condição ou ferimento que requerem hospitalização. O centro gravitacional é o de que a criança continua a ter direito à sua infância, direito a brincar, a interagir a partir de lugares saudáveis, direito à curiosidade, à exploração, ao jogo simbólico.

Mais, neste momento de dupla vulnerabilidade, a de ser criança e de estar doente ou precisar de cuidados médicos que implicam internamento, cuidar dessa dimensão – a criança inteira –, é ainda mais imperativo. E, por vezes, muitas vezes, é através dos palhaços, no caso, os Doutores Palhaços da ONV que, não apenas a criança, mas também os seus cuidadores e os profissionais do hospital com quem se cruzam e que podem observar estas interações, que se abre também, ou se recupera, ainda, a memória e a atenção sobre tudo o que continua, tudo o que pode continuar.

A ARTE COMO MANIFESTO

O segundo ponto, que considerámos essencial para esta comunicação, consistiu numa breve reflexão sobre o que significa, ou pode significar, trazer a arte para um lugar, como o hospital, que se reveste de outros códigos simbólicos, com preocupações e responsabilidades que necessariamente transformam esse contexto num espaço que é de uma certa forma. Como, ao fazê-lo carregamos essa dimensão da arte, como manifesto, para dizer o todo que é cada pessoa.

Um manifesto ao que não é da sobrevivência assim, de forma linear, mas que torna a vida de cada um ou cada uma,  numa vida com algum significado. Seja através da música, da pintura, da arquitetura, das artes plásticas, da literatura, através do espaço em si mesmo (por exemplo, modificando a luz e as cores dos quartos), seja através do brincar, ou de outras tantas formas que não são fundamentais num lugar de cura e tratamento. Trazer para dentro dos hospitais o que não lhes cabe, por natureza, é um dever e uma responsabilidade maior, e é um direito sim, uma forma de cumprir esse direito a ser completamente, mesmo nos tempos em que tudo parece um pouco (ou muito) incompleto ou fragmentado. Quer o corpo, quer a mente.

A OPERAÇÃO NARIZ VERMELHO

O modelo de intervenção:

Linha artistica

A atuação da ONV parte de uma linha artística. Os profissionais têm treino nas artes do palhaço e formação para a intervenção no contexto do hospital. Especificamente, antes de trabalharem no hospital, os artistas têm um ano de formação, período durante o qual são acompanhados e supervisionados por um artista já treinado. Para além desta formação inicial, todos os artistas participam em formação bi-mensal, na sede da organização, desenvolvendo trabalho de repertório, reflexão e discussão sobre práticas, etc. 

Trabalho em duplas

Os Doutores Palhaços da ONV trabalham sempre em dupla (e em alguns momentos, como durante a formação, em trios). Esta abordagem permite que a criança ocupe o lugar que é mais confortável para si e que se envolva na medida do que deseja. Para além disso, o trabalho em dupla permite que os artistas suportem o trabalho um no outro, no jogo do improviso e na intervenção em geral.

Residência artística

Cada dupla de palhaços intervém no mesmo hospital durante um período de seis meses a um ano. Esta continuidade é fundamental para estreitar as relações entre a dupla de artistas e as equipas, o que, por sua vez, favorece a qualidade do trabalho artístico.

O encontro

O foco do trabalho dos Doutores Palhaços da ONV é o encontro. Encontrar-se com a criança ou adolescente no lugar físico e emocional onde ele ou ela estiver. A partir das várias pistas de cada contexto, desde a luz e da acústica, às pessoas que acompanham a criança, aos objetos presentes no quarto, a dupla vai desenvolvendo o jogo do improviso, abrindo espaço para a criança conduzir, para que assuma um lugar que seja confortável para ela. A intervenção começa sempre pela porta, a porta como lugar simbólico a partir de onde a criança pode exercer controlo sobre o seu ambiente, num ambiente onde, muitas vezes, por razões maiores, a criança não pode decidir sobre o que lhe acontece, o que acontece com o seu corpo, o espaço, o seu tempo.

No âmbito desta comunicação, fomos ainda convidados a refletir sobre os principais desafios do nosso trabalho. Atualmente, estamos presentes em 21 hospitais do SNS e visitamos 58% das crianças internadas no nosso país.

Os desafios que encontramos, no terreno, são sobretudo os desafios da relação com as equipas. É um desafio inerente à natureza da intervenção. É importante, primeiro, construir uma relação com o hospital, um caminho que é desenvolvido pelo departamento da relação hospitalar. Durante esta fase, há um trabalho de informação e, por vezes, de desconstrução sobre a forma como trabalhamos e sobre a relevância do nosso trabalho, a presença da arte, no contexto do hospital, aqui, a arte do palhaço. De forma organizada e exatamente com essa intenção, o Centro de Estudos e Pesquisa, da ONV, é responsável por investigar e disseminar conhecimento sobre a natureza da intervenção dos Doutores Palhaços e sobre o impacto das visitas nas crianças, nos pais, nos profissionais de saúde e no ambiente hospitalar. Já existe uma boa quantidade de estudos, com resultados consistentes sobre o impacto das visitas, por exemplo, na ansiedade dos pais, na preocupação das crianças, na receptividade aos tratamentos, tolerância à dor (Ding et al., 2022). Existem estudos que demonstram impacto orgânico, como redução dos cortisol (Mathias et al., 2023), a hormona do stress, ou aumento da oxitocina (Sánchez et al., 2024), a hormona do afeto. Existem estudos que analisam o impacto das visitas em serviços específicos, como a oncologia pediátrica (Wang et al., 2024), o bloco operatório (Zhang et al., 2017) ou durante tratamentos/intervenções dolorosas (Kristensen et al., 2018). Por outro lado, existem menos estudos sobre o impacto noutros serviços, como na neonatologia (Xin et al., 2024) ou na pedipsiquiatria (Peceguina et al., 2024).

Em síntese, os obstáculos, ou desafios com os quais nos deparamos, são sobretudo exatamente os de afirmar que (esta intervenção, dos palhaços de hospital) faz sentido sim, que vale a pena, quer se trate de um bebé prematuro, que é também, sempre, uma mãe e um pai prematuro, quer se trate de um adolescente, numa unidade de psiquiatria, entorpecido pela medicação. Faz sentido sim, porque qualquer que seja o tamanho da pessoa, será sempre uma pessoa, inteira. E este encontro, que acontece tantas vezes com a unidade familiar, essa bolha delicada e forte ao mesmo tempo, é o reconhecimento de que somos sempre seres vivos, completos, humanos, seres afetivos e relacionais, que não existem sem o outro. Faz sentido sim, porque mesmo quando nos faltam partes, que ainda não se desenvolveram, ou que se perderam, mesmo que tenhamos chegado antes do tempo, e que estejamos na iminência ou na certeza de uma saída antes do tempo, esse tempo, cinco minutos que sejam, conta. O desafio, maior, é vencermos, nós adultos, a ideia de que na emergência de assegurar a vida, onde curar é, sem dúvida, fundamental, cantar, brincar, sonhar, continuam a ser, igualmente, essenciais.

 

Referências bibliográficas

Ding, Y., Yin, H., Wang, S., Meng, Q., Yan, M., Zhang, Y., & Chen, L. (2022). Effectiveness of clown intervention for pain relief in children: A systematic review and meta-analysis. Journal of Clinical Nursing, 31, 21-22. http://doi.org/10.1111/jocn.16195.

Kristensen, H. N., Lundbye-Christensen, S., Haslund-Thomsen, H., Graven-Nielsen, T., & Sørensen, E. E. (2018). Acute procedural pain in children: intervention with the hospital clown. The Clinical Journal of Pain, 34(11), 1032-1038.

Mathias, E. G., Pai, M. S., Guddattu, V., & Bramhagen, A. C. (2023). Non-pharmacological interventions to reduce anxiety among children undergoing surgery: A systematic review. Journal of Child Health Care, 27, 466-487.

Peceguina, I., Alcântara, I., & Gonzalez, A.-J. (2024). Stories of stories: Dialogues between psychology and art on pediatric hospital clowns’ visits narratives. The Humanistic Psychologist, 52(3), 289–301. https://doi.org/10.1037/hum0000325

Sánchez, J. C., Porras, G. L., Torres, M. A., Olaya, J. C., García, A. M., Muñoz, L. V., Mesa, H. Y., & Ramírez, A. F. (2024). Effects of clowning on anxiety, stress, pain, and hormonal markers in paediatric patients. BMC Pediatrics, 24(1), 728. https://doi.org/10.1186/s12887-024-05211-1

Wang, L., Zhu, J., & Chen, T. (2024). Clown care in the clinical nursing of children: a meta-analysis and systematic review. Frontiers in Pediatrics, 12, 1324283. https://doi.org/10.3389/fped.2024.1324283

Xin, G., Yingping, F., Yue, C., Jiaming, W., & Xue, H. (2024). Application of clown care in hospitalized children: A scoping review. PloS One, 19(12), e0313841.

Zhang, Y., Yang, Y., Lau, W. Y., Garg, S., & Lao, J. (2017). Effectiveness of pre-operative clown intervention on psychological distress: A systematic review and meta-analysis. Journal of Paediatrics and Child Health, 53, 237-245. https://doi.org/10.1111/jpc.13369


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