Pensar, Criticar e Fazer: O Impacto da Inteligência Artificial no Ensino Superior e na Formação Médica
Pensar, Criticar e Fazer: O Impacto da Inteligência Artifi cial no Ensino Superior e na Formação Médica
Artigo no âmbito da 5.ª Edição das Jornadas ERS
A inteligência artifi cial (IA) generativa veio revolucionar a forma como pensamos em sociedade. Pensar é, em boa verdade, um imperativo para o progresso, pelo que, desde já, se impõem desafi os ao desenvolvimento do pensamento crítico, que caracteriza o ser humano. Na Educação e na Saúde, áreas em que o pensamento crítico é particularmente exigido, os desafi os constituídos acentuam-se, especialmente no que toca a barreiras éticas e procedimentais.
No que diz respeito ao Ensino Superior, têm sido identifi cadas múltiplas barreiras institucionais, impostas por uma generalização do uso de IA sem qualquer recurso a normas de utilização. Importa, por isso, compreender, em primeira instância, de que forma tem sido utilizada a IA pelas diferentes Instituições de Ensino Superior (IES), quer no que diz respeito aos procedimentos institucionais e administrativos, quer no contexto das atividades letivas propriamente ditas. Num contexto de mudança acelerada, num ritmo sem precedentes, as IES devem assumir um papel de liderança, funcionando como fontes de evidência e de boas práticas na utilização de IA.
Atualmente, a adoção de IA pelas IES encontra-se desenvolvida ou em desenvolvimento na sua vasta maioria, especialmente no que concerne às atividades de ensino e de investigação. Ainda assim, a sua utilização assume, segundo o Conselho Nacional de Investigação Pedagógica no Ensino Superior, execuções subótimas nas atividades de gestão. Sabe-se, contudo, que os seus benefícios são diversos, abrangendo tanto o aprimoramento pedagógico, como as ferramentas de avaliação/feedback, a aprendizagem e expressão linguística, entre outros. Reconhecendo estes benefícios, as IES devem contemplar mecanismos de inclusão da utilização de IA de forma ética e regulada, procurando utilizá-la como uma forma de potenciar o funcionamento institucional e as atividades letivas, mas salvaguardando, simultaneamente, o Ensino Superior enquanto espaço de desenvolvimento do conhecimento adquirido.
Em particular na formação médica, a IA tem sido uma indiscutível fonte de inovação pedagógica, por exemplo ao nível da aprendizagem com recurso à simulação. Não obstante, a IA trouxe, também, alterações à relação médico-doente, acentuando a decisão partilhada em Saúde ao diminuir a assimetria de informação que frequentemente é dominante nestes contextos. Também os próprios profi ssionais de saúde têm, com a IA, a sua tomada de decisão facilitada. Importa, neste contexto, que a formação de profi ssionais de saúde, em particular de médicos, atente à importância do julgamento crítico e do pensamento ético, uma vez que, cada vez mais, o foco da profi ssão médica se desloca dos conceitos técnico-científi cos para a capacidade de discernir informações com base na sua fi abilidade. Simultaneamente, a generalização do uso de IA permite que a interação médico-doente seja mais centrada no doente, uma vez que a IA surge como uma oportunidade de automatizar processos burocráticos e facilitar a tomada de decisão do ponto de vista clínico. Tal reforça a importância das competências humanas mas impõe, naturalmente, desafi os éticos, particularmente ao nível do tratamento de dados dos doentes.
Todas estas exigências impõem uma mudança de paradigma na formação médica: os currículos médicos fi carão mais rapidamente desajustados da realidade, e tal implicará revisões curriculares e de conteúdos mais frequentes, que procurem, de forma crítica e fundamentada, incorporar a IA nas suas múltiplas dimensões. A IA veio, por isso, introduzir um ponto de rutura no país, e em particular no sistema educativo: as mudanças são, agora, muito mais frequentes. Mais do que nunca, o progresso implica repensar a forma como pensamos, criticamos e fazemos.
Breve nota biográfica
Maria Fontão, Presidente da Direção da Associação Nacional de Estudantes de Medicina, frequenta o 6.º ano curricular do Mestrado Integrado em Medicina, na Escola de Medicina da Universidade do Minho.
Póvoa, 08 de setembro de 2026
Maria Fontão
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